Dino de Alcântara
Quando Lourival resolveu
passar uma temporada no Cujupe, a pretexto de umas merecidas férias, desejava
duas coisas: descansar e reviver uma das melhores fases de sua vida: a
infância, em que, com a liberdade de um bicho selvagem, brincava até se fartar
naquelas matas, comendo frutas selvagens no próprio pé. Queria se deliciar nas fontes, tomando banho de cuia. De cara, descartou o vaso sanitário. Queria alguma coisa que
lhe lembrasse dos anos 50 e 60, em que usava um longo tronco de ingazeira para
as necessidades fisiológicas. Por isso preferiu usar o mato. Mas logo percebeu
que isso era anti-higiênico. Assim teve uma ideia: descer a famosa ladeira do
Porto de Vevelha, em direção ao mangue. Lá descobriu um enorme mangueiro, ideal para o que desejava.
Subia na árvore, sem grudar os pés, e lançava seus excrementos na
lama, longe de casa, o que era conveniente. A maré, ao vazar, carregava a imundície para longe. No terceiro dia, no entanto, percebeu uma coisa
estranha: um amável caranguejo não deixava as suas fezes às moscas, quando a maré estava baixa. Com suas
afiadas patas, devorava tudo. Assim, quando a maré enchia, já não encontrava
mais nada para levar. Um belo dia, depois de ter se fartado de um mingau de
milho com bastante vinho de coco, teve um problema intestinal tão terrível
daqueles que não há tempo nem para retirar a roupa. Ele saiu correndo, já
imaginando que não conseguiria chegar ao destino. O fétido líquido já viajava a
dezenas de centímetros por segundo. A qualquer momento chegaria com certeza aos
fundilhos. Ao alcançar, no entanto, a árvore, o famigerado crustáceo sai da
toca a mil, com suas patas afiadíssimas. Ao mesmo tempo em que fazia expelir o fétido líquido, Lourival foi logo avisando, de dedo em riste na direção do crustáceo:
— Epa! Nem vem de garfo,
cumpade, que a comida hoje é sopa!


Muito boa essa história.
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