segunda-feira, 2 de março de 2026

OS IRMÃOS ESAÚ E JACÓ

 

Dino de Alcântara

 

A Raimundo Paiaco, que me contou esta história,

numa noite de lua cheia nos céus do meu velho Cujupe.

 


– Então, crianças, já conhecem a história dos dois pequenos que eram o diabo dentro de casa? – Indagou Paiaco, metendo um gole de um café fumegante.

França foi logo gritando:

– Conta, conta, Raimundo.

– É de assombração? – Quis saber Antônio.

– Que nada! É história de malandragem.

– Bom... Se é de malandragem, conta logo – também entrei no lobby! 

– Diz-que, no outro tempo – iniciou a sua narrativa –, quando vocês nem eram projeto de gente, nem eu também...

Arinaldo interrompeu para perguntar se era no Cujupe...

– Te aquieta, afobado... Não era aqui. Era em Alcântara... Faz tempo. – Tomou mais um gole de café e continuou. – Uma moça daqui da terra se casou com um moço rico de Alcântara. Moravam num sobrado na Rua Grande.

– E não tinham filhos, Raimundo? – Interrompeu Arinaldo novamente. 

 

– Te acalma... Aí que entra a história. O casal passou um bocado de anos sem ter filho. E era remédio daqui, remédio dacolá, e nada. Até que a mulher, já quase com 40 anos, fez uma promessa à Nossa Senhora do Livramento... Se ela lhe desse um filho, daria um nome tirado da Bíblia e faria dez ladainhas na Ilha do Livramento.

– E aí, Raimundo, deu certo?

– Ora, se não. E alguém pode com uma santa dessa? Em menos de três meses, a mulher já estava buchuda. Foi a maior festa no sobrado.

– Teve dança e tudo mais? – Perguntou Antônio?

– Como tu soube disso, Raimundo? – Arinaldo atacando novamente.

– Ora, ora, e como havia de saber? Essas coisas são contadas, assim como eu estou contando agora para vocês.

E os meus olhos se encheram de um brilho. Acho que, por alguns segundos, eu sonhei que um dia poderia ser um contador de histórias, igualzinho Raimundo...

– Pois bem... Quando chegou a época do parto, foi um Deus nos acuda... três dias de dor, com parteira até de São Luís na beira da cama da mulher. E nada da criança nascer.

– Ah, Raimundo, não diz que essa pobre mulher vai morrer... – França quase chorando.

– Não, pequena, te sossega. A coisa ainda tem fio pela frente.

– Então conta, Raimundo...

– Aí foi a surpresa maior do mundo: vieram duas crianças, dois machinhos, fortes que só.

– Dois pequenos? – Antônio arregalou os olhos.

– Dois, sim. Aí que foi festa, e das grandes. Foram três dias de festa no sobrado do casal. E na hora de botar o nome é que foram elas...

– Por que, Raimundo?

– Ora, por quê... Ninguém esperava dois pequenos. O pai já tinha dito que ia botar José, se fosse menino, e Maria, se fosse menina. Mas... com dois pequenos, como ia ser?

– E aí? – Quis saber Antônio.

– Aí, meus pequenos, é que o padre Romano entrou em cena. Disse que o melhor era botar o nome de dois gêmeos famosos da Bíblia – Esaú e Jacó. E assim foi.

– E as promessas, Raimundo? A mulher pagou? – Arinaldo quis saber.

– Promessa é dívida, que precisamos pagar. Pagou, e numa delas quem rezou foi a mãe do finado Genésio, que era tio de teu pai.

Raimundo tomou mais um gole de café.

– Os meninos cresceram, mas a coisa mudou de figura. Com 5 anos, os dois pequenos brigavam que nem dois demônios dentro de casa. A mãe mandou os dois fazerem a primeira comunhão, e nada. Chegaram até a atarracar na porta da rua.

– Era briga feia, Raimundo? – Arinaldo arregalou os olhos!

– Se era, não. Diz-se que até bogue na cara do outro teve. A mãe, quando os meninos fizeram dez anos e viviam em pé de guerra, fez nova promessa para Nossa Senhora do Livramento. Disse que, se os pequenos parassem de brigar, ia mandar fazer uma imagem de quase um metro de tamanho da santa para botar numa capelinha que ia mandar construir no quintal. Mas nada. Nem a Santa deu jeito nos dois meninos, que brigavam e dia e de noite.

– E não tinha como castigar os dois? – Perguntou França?

– Hum... Se castigo resolvesse, não tinha mais gente braba no mundo, nem briga.

– Querem ver como um vai matar o outro? – Apostou Arinaldo.

– Te acalma, pequeno, que ninguém vai morrer aqui. Por essa época, o padre Romano, que era homem sabido que só, disse para a mãe dos gêmeos que a solução estava em dar ao outro o dobro do que um pedisse. E, se não resolvesse, o jeito era botar de castigo.

– Está é doido esse padre? – Berrou Antônio.

– Que doido, nada! A coisa era assim: Se o Esaú pedisse um pedaço de doce, a mãe daria um para ele e dois pedaços para o Jacó. Entenderam a coisa?

Todos anuíram.

– E assim ficou a questão resolvida. A mãe e o pai já estavam querendo pagar a promessa da santa, porque, para eles, o padre só tinha sido o portador da ideia de Nossa Senhora do Livramento.

– E eles pararam de brigar, Raimundo? – perguntou França.

– Pararam... ora se não.

– O padre era porreta! – Atalhou Antônio.

– Ou a Santa, né Raimundo? – Cortou Arinaldo.

– Isso mesmo. Podia ser coisa da Santa.

Raimundo mirou o tempo lá fora, com a Lua alta para as bandas do Santana, e continuou:

– Já tinham até começado a fazer a capela no quintal, quando o Jacó entrou pela porta com uma baladeira na mão... A mãe já ia ralhar, quando o menino disse que não tinha acertado no irmão. E ela deu Graças a Deus... E ela perguntou:

– Mas o que tu fazes com essa baladeira na mão?

– Mamãe, cometi uma ação feia, digna de castigo. Me castiga, mamãe!

– E o que tu fizeste, meu filho?

– Eu vi um passarinho cantando tão feliz...

– Continua...

– Aí, mamãe, eu peguei minha baladeira e atirei uma pedra na avezinha.

– Meu filho, eu não te ensinei que não se devem maltratar os passarinhos, que são criaturas de Deus?

– Sim, mamãe, por isso, quero que me castigue, conforme o padre Romano disse.

– É o que tu mereces, meu filho.

– Sim, mamãe. Eu peço que me dê uma dúzia de bolos.

E correu a pegar a palmatória, que ainda era do tempo da avó dos gêmeos, no armário do quarto dos pais.

– Taqui, mamãe. – E estendeu a mãozinha direita para apanhar.

A mamãe, mesmo com o coração em prantos, castigou merecidamente Jacó, dando-lhe os doze bolos que ele havia pedido.

Quando deu a décima segunda palmatória, o menino, no lugar de chorar, abriu um sorriso malicioso no canto da boca.

– Agora, mamãe, que já me castigou, chame o Esaú e meta duas dúzias de palmatórias bem dadas nele.

 


segunda-feira, 3 de novembro de 2025

JUIZ OU FULUSTRECO?


 Dino de Alcântara

 


Ninguém sabe explicar o porquê de tamanha irritação das pessoas no trânsito ou viagens, seja de carro, de avião ou de barco. O estresse parece atacar as pessoas de tal maneira, que o viajante (ou o sujeito que dirige nas ruas das grandes cidades e – claro – nas rodovias do Maranhão) tem a sensação de que vai ter um enfarto.

Dr. Irineu, magistrado conhecido em São Luís pela seriedade com que se dirigia às pessoas, embora tivesse um coração justo, deve ter tido essa sensação, quando chegou ao Porto do Cujupe, vindo de Belém, e descobriu que o seu ferry já tinha saído. Havia comprado passagem para a embarcação de 15h30, mas, com as estradas em petição de miséria, chegou somente às 16h. E pior: foi avisado que deveria entrar na fila de espera. Talvez viajasse no ferry de 21h30.

Voltou ao final da fila furioso com todos, inclusive com Brandão.

Estacionou o carro, saiu do veículo e sentou num mocho numa quitanda. Esperou bem uma meia hora, e nada de andar um metro. Foi aí que teve a lembrança feliz de que poderia ir tomar um banho e tomar um café e, quem sabe, até um descanso numa rede, na casa de França. Sim, senhor. Vou lá, pedir um banho e um café.

Foi. No momento em que passava na porta da casa de Papa-Tudo, passou uma caçamba cheia de terra. A poeira lançou quase dois quilos de terra no ar. A roupa do juiz deve ter absorvido algumas dezenas de grama da poeira. Os olhos receberam ao menos um grama cada. Ia mandar um palavrão, mas conteve. O sangue subiu-lhe a fronte. Sentiu uma ira incontrolável.

Subiu a ladeira. Outra caçamba cheia de terra fez o mesmo, só que com menor intensidade. Arrependeu de ter saído do carro.

Ao chegar à casa de França, dá com Zabé no terraço, molhando umas plantinhas de vaso. Zabé, o narrador sabe, o leitor não, era daquelas mulheres com a língua maior que o mundo. Pobre, mas com um ar de quem é superior ao outros. E por quê?... Por ser do litoral, em contraposição aos que moravam na baixada, a quem chamava de bando de morto de fome, que nunca viram comida.

Ela arregala os olhos para a visita, como quem mira um pobre que vem pedir água.

– Boa tarde, moça.

Ela espichou os beiços como quem quer saber o que quer.

– França está em casa?

– E quem é que quer falar com ela?

– Eu. Tu tá vendo outra pessoa aqui?

– Chiba, égua! E tu não tem nome?

– Pequena, faz o favor de chamar França.

Zabé, braba, berrou para o quintal:

– Comadre, tem um fulustreco aqui, querendo falar com a senhora!

França, lá do quintal, apenas entendeu que tinha visita. E disse um já vou...

O magistrado parado, com vontade de dizer umas poucas e boas para Zabé.

– Cadê ela?

– Tá vindo, siô... Ah... tá apressado?]

– Tu não acha que já fez muitas perguntas não, hein?

– A boca é minha, e tu responde se quiser...

E ia dar um baile de esculhambação, mas Zabé foi salva pela anfitriã, que chegou, mandando que a visita entrasse.

Daí a meia hora, depois de um banho vigoroso, o Dr. Irineu, abancado numa cadeira, tinha defronte de si uma boa xícara de café, com beiju, juçara e farinha d’água.

Zabé se aproximou:

– Quer dizer que tu é juiz no duro mesmo?

Ele assentiu com a cabeça, confirmando.

– Juiz de verdade mesmo ou de jogo de bola no Estádio Municipal?

Ele sorriu da alternativa. Era a primeira vez no dia que sorria.

– Tu é delegada, pequena?

– Antes fosse, que eu te tocava no xadrez com dois chutes no rabo!

Novo riso, agora mais aberto.

Ela se sentou. Mirou bem a cara do magistrado, botou o dedo quase no nariz:

– Olha... da próxima vez tu reponde teu nome, cumuchama.

E ganhou a rua.

No dia seguinte, no comércio de Carrinho, Zabé dizia para Lapichal:

– Infilizmente eu tava na casa de comadre França... Senão, eu voava na goela dele.